Uma dose de vodka para viagem III
novembro 24th, 2009 | Publicado em refletir | 5 Comments
Por Fábio José Oliveira
Desmemoriados
O sistema de desmemorização começou sutilmente. Mensagens subliminares inseridas em comerciais e filmes serviram como precursores do processo. Quando os aparelhos de Blue Ray se tornaram generalizados, os mais fracos mentalmente foram reduzidos a marionetes. Uma onda de suicídios também assolou muitas cidades nos meses antes da Saraiva. Sentíamo-nos observados por todos os lados. Orwell foi um sensitivo em sua obra, pois realmente em meados de 2018, dois anos antes da Saraiva, todas as cidades do mundo estavam enquadradas no Sistema Global de Segurança e Saúde, que gerou a sigla “SGSS”, ou simplesmente, como ficou conhecido, a segunda “SS”.
Um bilhão e quinhentos milhões de dólares investidos em câmeras ao redor do globo. Diziam que até as webcams domésticas tinham sido grampeadas. Muitos desapareceram. Intelectuais, artistas, médicos, pessoas que questionavam ou demonstravam descontentamento ou discordância. Uma onda de temor percorria as cidades, até que se instalou um falso e alegre contentamento. Todos agiam como se vivêssemos numa acrópole dourada. E realmente tudo parecia alegre e tranqüilo. Raramente alguém lembrava que vivíamos sob A Lei Platinada.
Nesta época trabalhava como assistente de um professor na Universidade. Fazíamos uma pesquisa sobre desdobramento cênico. Usávamos alguns conceitos de física quântica na busca de uma nova proposta de encenação. Em 2015, algum tempo depois das pesquisas se iniciarem, os livros de Stephen Hawking foram recolhidos das prateleiras das lojas, proibindo a utilização desse material pela população. O “SS” os considerou perigosos para saúde mental.
Todos os autores e obras que propunham algum questionamento da realidade ou desdobramento de consciência foram perseguidos. Não existiam mais programas de notícias. Só entretenimento. Porém, todos eram obrigados a assistir o programa de orientação social vinculado por todos os canais de televisão abertos ou fechados ao redor do globo. Documentários foram banidos. Tudo considerado subversivo. Os artistas eram mapeados e catalogados. As obras deveriam ser psico ativadoras. Deveriam contribuir com o sucesso do establishment. Toda e qualquer forma de indagação sobre o “SS” era sumariamente reprimida.
Porém, não sabíamos das punições e sanções intelectuais que ocorriam. Até que pessoas próximas começaram a ser investigadas e presas. Alguns colegas dados como desaparecidos. Porém nenhuma nota, nenhum informe, absolutamente nada sobre essas pessoas. Percebi que a programação era um acobertamento da realidade e a capacidade de questionamento era influenciada pelo Blue Ray. Desliguei as televisões e mudei o monitor do meu PC. Vivi um período como um ermitão urbano. Evitava ambientes que tivessem monitores Blue Ray ativados. Saía pouquíssimo de casa, no período que antecedeu a Saraiva. Buscava regiões menos urbanizadas. Buscava sempre a natureza. Nos dias da Saraiva estava acampando no Quênion Guartelá. Consegui abrigo numa caverna. Três dias imerso entre as sombras de Platão.
Uma sirene me traz de volta ao presente. Antes de atravessarmos a praça, ou pelo menos aquele retângulo eqüilátero ao lado da catedral que costumava ser a Praça da Renascença, antiga Praça da Bandeira. Uma sirene ensurdecedora soa estremecendo tudo. HP.com, me segura pela mão e me faz correr. Desespera-se. Precisamos nos esconder, diz. Procura uma entrada. Uma fresta. Rápido ajuda, grita. De repente a sirene silencia.
No silêncio da sirene, entendo o pavor do jovem. Vozes. Centenas, talvez milhares de vozes aterradoramente famintas abafam o ambiente. Os deletados, sussurra. Olhando para trás vejo figuras de partes humanas surgindo de todos os lados. Braços, olhos, pernas, parecem materializar-se escorrendo pelas fachadas arruinadas da cidade. Muito mais impressionante do que auto-cura. HP.com, me puxa para dentro de um cubículo. Podemos observar o lado de fora dali. Uma gigantesca massa com aparência gelatinosa passa por nosso esconderijo. Dela emergem partes de pessoas, além do horrível clamor das vozes. Parece que estão vivos. Uma visão infernal digna da poética de Dante Alighieri. Ali naquele cubículo percebo que HP.com é uma moça.
Créditos
Texto de Fábio josé
Direção de arte: Paula Cantieri
Edição de imagem: Carlos Angelo
Ilustração do cartaz francês do filme The Blob



novembro 25th, 2009at 5:01(#)
TOMBARAM COM A CARA DO AUTOR, AZZARRANCIA TOTAL COM DOIS Z´S E DOIS R´S ADOREI ATÉ OS CRÉDITOS..BEIJOS
novembro 28th, 2009at 9:59(#)
[...] This post was mentioned on Twitter by Paula Cantieri, Paula Cantieri. Paula Cantieri said: Quando os aparelhos de Blue Ray se tornaram generalizados, os mais fracos mentalmente foram reduzidos a marionetes… http://bit.ly/6S1Dkr [...]
dezembro 3rd, 2009at 12:18(#)
Quero mais!Para quando vem o próximo capítulo??
Sr Fabio! Abalaou!
abril 26th, 2010at 8:11(#)
Fantastico!!!!!!!!!!!!!!!!!
maio 20th, 2010at 18:48(#)
Agora compreendi o estilo da “A Rotativa”! Muito bom.