Uma dose de vodka para viagem IV – Jet lag
fevereiro 18th, 2010 | Publicado em recentes, refletir | 3 Comments
Por Fábio José Oliveira
Quarto episódio da série “Uma dose de vodka para viagem”
Minha barba serve de calendário. Aproximadamente doze semanas se passaram desde que acordei neste pesadelo. Sem sair do lugar, viajo no tempo. Uma verdade surpreendentemente maravilhosa, porém nada racional para aceitar. HP.com tornou-se uma companheira inseparável, sem ela não teria chegado tão longe. Este pesadelo que Londrina se tornou, a cada esquina uma novidade bizarra espreita. Como Dante segue pelas trilhas do inferno com Virgilio, eu a sigo pelas ruínas da cidade que outrora fora o símbolo da resistência humana sobre a Terra. Entretanto nestas semanas, não vi pessoa alguma, além de HP.com e de seu companheiro fujão.
Caminhamos em direção a antiga prefeitura, nas margens do extinto Lago Igapó, que foi lago até a reconstrução da cidade após a Saraiva. Porém, nos projetos de reconstrução estava incluído o aterramento total da bacia do rio Cambezinho. Proposta feita no terceiro mandato de Barbosa Neto. Um dos poucos políticos que restaram. Depois da instalação dos C.R.S., a classe política foi banida. A organização administrativa seguia as premissas do “SS”. Sobre o aterro do lago construíram o C.R.S. (Centro de Rastreamento e Segurança) dispositivo do “SS”. Ali, os Aplicadores, administravam todas e quaisquer informações dos cidadãos assim como aplicavam as penalidades cabíveis e principalmente as descabíveis.
Lembrava o departamento chamado de Information Retrival, da película Brazil, de Terry Gillian. A história é uma ficção científica futurista e bastante fantasiosa. É sobre uma sociedade estranhíssima depressiva, infeliz, altamente alienada por burocracia. O mundo é um completo caos. O protagonista recebe uma promoção para o departamento mais importante no governo que cuida da burocracia, o Information Retrival. Ele e seus companheiros de trabalho devem lidar com milhares de papéis, num ambiente intoxicante e acaba se envolvendo com a mulher de seus sonhos, que é uma terrorista (fonte: www.cyneplayers.com). Porém, diferentemente de Sam o protagonista da historia, nós realmente vivíamos a realidade da alienação burocrática. O C.R.S. é responsável por todo documento, requerimento, alvará, que qualquer cidadão necessite. Todos os departamentos da administração pública estão submetidos a este sistema, assim como o Departamento da Força de Aplicação Lícita, este último é o orgão que substituiu a policia na Era Platinada. Ter um filho trabalhando neste setor era o supra-sumo para os pais da Classe Beta emergente.
Em 2030 o concurso para ingressar na Escola dos Aplicadores juntou mais de quinze mil candidatos. Vieram de todas as áreas remanescentes. Logo após a Saraiva, o SS e seus departamentos eram os únicos focos de aparente ordem diante do caos. Neste período os sobreviventes pareciam crianças perdidas no parque. Os dispositivos do “SS” eram as únicas respostas diante de tantas dúvidas. Nos anos que se seguiram o “SS” tornaría-se a grande tábua de salvação. Eu fora testemunha ocular da transição destes períodos, lembrava-me da época anterior à Saraiva. Durante a infância e adolescência pude experimentar todo o saudosismo bucólico do começo do século XXI. Afinal eu vinha de uma família grande que fundamentava seus valores no século XX e acreditava na possibilidade de um retorno ao um modo de vida simples e caloroso. Assim como no tempo do avoelito – dizia minha mãe.
Porém nossos idílicos sonhos acabaram-se na Saraiva. Se o atentado de onze de setembro na América do Norte marcou de sangue o começo do século XXI, a Saraiva trouxe a realidade do novo milênio. Dez anos após a Saraiva, algumas cidades estavam vivendo na idade média. Foi uma re-civilização da humanidade. Os dominadores de tantos séculos reduzidos às cinzas. As agendas globais para um novo milênio ardiam debaixo de toneladas de escombros das metrópoles anglo-saxônicas. A nova ordem mundial era de fato lutar por uma porção de ração.
A sede das Nações Unidas foi transferida para o Arquipélago das Malvinas, sob o olhar atento e desconfiado dos ermanos. Para alguns, uma visão bem menos atraente do que nos filmes de ficção científica Cult que víamos no cinema da Casa de Cultura Nitis Jacon, fundada em meados de 2016. Blade Runner, Metropolis, Admirável Mundo Novo jamais suporiam aquela hecatombe natural. Aliás, a sociedade humana havia esquecido que a realidade cósmica supera a artificialidade terráquea da realidade. Só não consegui entender até então, o porque daquela escuridão. A cidade que eu vi ser reconstruída agora era um underground caótico. Não se via nuvens, nem céu, nem estrelas. A garota conta que desde que se lembra tudo sempre foi assim. Indago comigo mesmo ─ só uma guerra nuclear seria capaz de selar os céus e criar tamanha escuridão, secura e frio. Porém, o que minha atordoada percepção não notara, é que a realidade naquele fractal de tempo e espaço era mais catastrófica do que eu jamais suporia.
Estávamos acampados no que restara do anfiteatro do Zerão. O mato adaptou-se bem àquela continua penumbra, pois está bem alto. Ali segundo H.P., os “deletados” não se aproximam. Daquele ponto, avista-se a imponente torre do C. R. S. que ainda emite um sinal luminoso. Uma fraca luz azul pulsante intermitentemente funciona. A menina por sua vez, teme aproximar-se mais. Vejo terror em seus olhos quando aponto a torre. É azar aquele lugar, ela diz com os olhos aguados. Mas, dentro de mim algo insiste que há respostas ali. Amanhã, disse à garota, entrarei lá. Deitamos. Passaram-se algumas horas desde que fechamos os olhos, deduzi isso, pois ao abrir os olhos vejo que nosso fogo está bem reduzido. Engraçado, desde que estou aqui não me lembro de sonhar. Continuo deitado, ouvidos atentos. Ouço passos passando por detrás de mim, alguém nos observa, sem cuidado algum e balbuciando. Levanto-me fingindo não perceber nada. Ajeito o fogo. Dou as costas para a direção do barulho. Parecendo bem distraído, de repente agarro o bisbilhoteiro.
Para minha surpresa é o fujão. Um homem diminuto, tamanho infantil, sem pelos, com olhos esbugalhados e um olhar agressivamente moribundo. Grita e esperneia, porém não me assusta mais. Só porque eu estava atordoado, pensei. Mas agora, estou restabelecido apesar das dúvidas, fisicamente eu estou bem. O homemzinho apesar de franzino é valente. Faz-me rir. H.P.com sobresaltada implora para que não o machuque. Seguro o homenzinho sobre o fogo. Vamos ver se você também se cura, grito-lhe. O quer com a gente, ele pergunta. A garota fica estarrecida de medo vendo minha atitude com ele e chora. Ela me pede com o olhar que o libere, pela garota solto o infeliz. Eles se abraçam e choram.
Créditos:
Ilustração por Bernardo Faria



fevereiro 18th, 2010at 18:21(#)
incrível e tombante
fevereiro 20th, 2010at 12:28(#)
Olha Rotativos, sou suspeito mas não posso deixar de puxar a brasa pra sardinha de vocês…esta publicação ficou excelente…fala pra esse fabio jose olhar com cuidado os detalhes na digitação pois faltou um “qzinho” ali antes de …o libere… na ultima linha. Mas a argumentação dessa historia esta muito curiosa e instigante quero mais episodios… sucesso a todos
fevereiro 27th, 2010at 10:06(#)
Puxa, sempre me surpreendo com a liberdade que as referência são expostas nos textos do Fábio. Isso me fascina nos contos, essa atmosfera espontânea e interativa. Como sempre um ótimo texto, a melhor parte foi a referência a Barbosa Neto. A ilustração ficou muito boa, principalmente por ser de um lugar o qual me identifico tanto. Só mais uma palavrinha:
– Barbosa Bundão abaixa o Busão.