De passagem por Londrina
janeiro 29th, 2010 | Publicado em recentes, refletir | 1 Comment
Por Tony Hara
Dois textos de Rubem Braga
O acaso, o trabalho ou mesmo o gosto pela viagem trouxeram para Londrina uma estirpe de nômades muito especial. Pela cidade passaram o antropólogo Claude Lévi-Strauss, o geógrafo Pierre Monbeig, o jornalista David Nasser, o escritor João Antônio, entre outras figuras do mundo das letras. Esses viajantes flagraram cenas na cidade e procuraram, através do pensamento e da escrita, compreendê-las.
Um desses retratos foi produzido pela sensibilidade do cronista Rubem Braga. Em seus textos, Braga capta o frenesi de uma cidade tomada pela febre do ouro verde. Ele descreve o tempo veloz, cidades brotando como cogumelos após as chuvas de verão. Cidades rudes, em que o trabalho e a trapaça são faces de uma mesma moeda.
Reproduzimos, na íntegra, as duas crônicas de Rubem Braga que têm como personagens a cidade e os moradores de Londrina da década de 1950. Esses textos fazem parte do livro Dois repórteres no Paraná, que reuniu crônicas de Rubem Braga e reportagens de Arnaldo Pedroso d’Horta.
Londrina
Não é a primeira vez que eu vejo Londrina. Andei por aqui em 1934, quando, humilde e operoso repórter agrícola, acompanhei uma comissão de importadores europeus de café por todas as zonas de café de São Paulo e Paraná. A cidade, fundada pouco antes, tinha cerca de 2.000 habitantes. Voltei em fins de 1940, para fazer, com amigos, uma caçada às margens do Tibagi, onde por sinal cacei, antes de tudo, uma bela maleita; e Londrina tinha 12.000 habitantes. Volto agora para encontrá-la com cerca de 35 mil.
Se em 1934 eu tivesse comprado no centro da cidade um lote de 15 por 40 teria pago 400 mil réis; hoje seria possível vendê-lo por 1 milhão de cruzeiros. Também neste caso meu grande consolo é pensar que em 1934 eu não tinha, de maneira alguma, 400 mil réis disponíveis; e se tivesse o gastaria, com certeza, de modo mais divertido.
Um amigo Rocha comprou, em fins de 1939, em um bairro da cidade, uma casa de material (“de material” quer dizer: de tijolos, e não de madeira, como costumam ser as casas do interior do Paraná) por 15 contos, com um terreno de 1.200 metros quadrados; vendeu isso em 1950 por 400 contos.
O município, criado em 1934, perdeu três distritos, que passaram a constituir municípios novos: Rolândia, Apucarana e Cambé. Com apoio em Londrina, as ondas de povoamento partiram em várias direções, a derrubar as matas, plantando cidades novas que começam a existir com violência antes que os mapas tomem conhecimento de seus nomes. Nomes que vão entrando na cabeça da gente misturados com histórias de lutas de terras e de riquezas súbitas: Porecatu, Centenário, Alvorada, Mandaguari, Maringá…
Dizia-se que o paralelo 23 marcava o limite sul da zona do café: a linha de frente dos batalhões verdes já passou de Campo Mourão, abaixo do paralelo 24. E junto com o café vêm os cereais, para matar a fome crescente das grandes cidades do Brasil. É inútil dizer que os dois grandes problemas aqui, são, como em toda parte do Brasil, transporte e energia.
Na verdade os problemas crescem com uma velocidade desorientadora. O governo planeja um grupo escolar para 400 crianças; quando o grupo fica pronto o número de crianças que precisa dela é de 2.000… O aluvião humano deixa para trás a máquina estatal; o “patrimônio” de súbito precisa virar município; o político que passou há dois anos para organizar o diretório do partido não encontra mais, agora, nenhum dos membros: todos já seguiram adiante. Uma sociedade nova se instala de súbito; o soldado do destacamento que veio há cinco anos prender um assassino acabou ficando no povoado, e hoje o povoado virou cidade e o soldado virou fazendeiro. É a terceira vez que como poeira por estas estradas, e minhas surpresas rebentam de légua em légua.
R.B.
Mundo Novo
No lugar das casas de madeira que conheci antigamente, Londrina está cheia de prédios novos — e os edifícios de cimento armado, de linhas modernas, crescem em vários pontos. A cidade tem todo o conforto, tem vida noturna com damas cariocas, argentinas e uruguaias, tem boate, pode chamar cantores internacionais que não vão a Curitiba — e tem também uma das maiores criminalidades do mundo. Não é segredo para ninguém que muitas autoridades já foram corrompidas aqui: é difícil, com um ordenado mesquinho, ter uma verdadeira ascendência em uma terra em que as fortunas nascem de súbito e a vida é freqüentemente mais cara que no Rio de Janeiro. Faço a barba em um barbeiro qualquer, de uma rua qualquer, e me cobram o mesmo preço do barbeiro do anexo do Copacabana Palace Hotel; sete cruzeiros, isto é, pelo menos dez, com a inevitável gorjeta. Assim é tudo. Esse hotel em que me instalo é propriedade de um médico vindo há alguns anos, sem um tostão no bolso, tentar a vida…
O atual delegado de polícia é um homem alto, pouco falante, de cara de nenhum amigo. Ele mesmo me diz que não pretende fazer amizades aqui; é um homem de posses, que veio para combater o crime e a corrupção. Está aqui apenas há dois meses e já fez uma bela safra de estelionatários. Conhece um certo número de espertalhões financeira e politicamente bem colocados e espera uma “chance” de prendê-los. Está “limpando” a cidade antes que chegue a safra de café (esta safra será enorme, os gordos cafeeiros estão com uma carga soberba), quando os crimes se multiplicam. As maroteiras são feitas especialmente com conhecimentos de café, cheques sem fundo, venda de fazendas pertencentes a terceiros: golpes de centenas de contos, dados em poucos minutos, criando depois entre o “otário” e terceiros, situações difíceis de resolver. Os lavradores japoneses são vítimas freqüentes desses espertalhões. Recentemente apareceu um tipo original, que vendeu a dezenas de baianos, paulistas, mineiros, japoneses, polacos, etc., enormes, brilhantes e falsas condecorações do governo da… Bolívia. Os rudes desbravadores do Norte, enriquecidos em poucos anos, queriam enfeitar-se com medalhas.
Alguns homens ricos tratam de morar e viver bem; a maioria entretanto, emprega dinheiro em novas terras e plantios, arma nova casa de pinho junto a uma nova floresta, continua a trabalhar furiosamente para ganhar mais dinheiro. A cidade é toda calçada, mas os caminhões e ônibus trazem para as ruas a lama e a poeira da fecunda terra roxa. A gente se ensaboa e se lava duas, três vezes, e no fim a toalha ainda fica avermelhada. Começam a nascer indústrias: a construção de uma hidroelétrica mais poderosa é essencial para estas cidades onde se montam apressadamente os conjuntos diesel. Aqui, onde se queima tanto óleo e tanta gasolina, e todo o progresso e a própria vida da cidade e da lavoura está na dependência desses produtos, é que se pode sentir com mais angústia até que ponto é vital para o Brasil intensificar a exploração do petróleo. O atual governo do Paraná vai asfaltar ou cimentar 1.000 quilômetros de estrada, e constrói muito outras; o Paraná precisa ainda de muito mais estradas para poder cumprir o papel portentosamente importante que de súbito assumiu na vida do Brasil. Dentro de três anos será talvez o maior produtor de café — isto é, de divisas.
E Londrina, capital desse mundo novo, cresce com imponência, fica importantemente urbana, gasta seus montes de dinheiro com uísque, cimento e luxos; mas a poeira do trabalho ainda lhe dá um ar rude, o barulho dos caminhões carregados ainda lhe proíbe qualquer doçura — pois só a idade e a discreta indolência podem fazer a cidade dos homens abençoada pelo espírito, pela sabedoria e pela graça de viver.
Créditos:
Tony Hara é formado em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Fez mestrado (UFPR) e doutorado (UNICAMP) em História da Cultura. Publicou um ensaio biográfico do poeta Paulo Leminski para a Coleção Rebeldes Brasileiros: homens e mulheres que desafiaram o poder (Coleção Caros Amigos, 2002); Estilo de vida e a verdade: o exercício ético do hipócrita e do cínico. In: Revista Verve. (PUC-SP, 2005); Os descaminhos da nau foucaultiana: o pensamento e a experimentação. In: Figuras de Foucault. (Autêntica, 2006). Além das palavras de ordem: a comunicação como diagnóstico da atualidade. In: Para uma vida não-fascista. (Autêntica, 2009). Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado em História da Cultura na Unicamp.
Ilustração por Pablo H. Blanco



fevereiro 10th, 2010at 13:19(#)
hein A Rotativa finamente esmiuça a historia do Norte paranaese. não só divulgam cultura mas tambem deixam sua amrca..parabens!