Demosul – Tardias ponderações alcoólicas

dezembro 1st, 2009  |  Publicado em ouvir  |  6 Comments

Por Paula Cantieri e Felipe Melhado

Jovens sobrevivem ao Demosul com leves lesões no fígado


Paula Cantieri

1º Dia: Espaço Alona

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Daniel Belleza

Na primeira noite de Demo Sul, a discotecagem priorizou o rock independente nacional e local, tocando bandas como Cherry Bomb, entre outras. Enquanto acontece a Metamorfose em outro canto da cidade, no Demo Sul a fantasia é o rock ‘n roll. No banheiro uma das frases mais suscintas da noite: “quem bebe quer fazer xixi”.

Apesar da noite não ser de casa cheia, as pessoas presentes estavam bem animadas. O repertório da banda Daniel Belleza & Os Corações em Fúria apresentou várias músicas próprias e alguns clássicos como I Wanna Be Your Dog.  Muita performance de palco e interação com o público que, apesar de pequeno, era seleto e não deixou a peteca cair. A banda ainda executou músicas de Zé Ramalho, Secos e Molhados e Ramones, sempre com versões inusitadas. “Quando a galera acorda e começa a dançar, acaba o show”.  Depois que Daniel Belleza quase botou fogo na própria cabeça com uma bituca de cigarro, o show terminou em  grande estilo ao som de Roberto Carlos.

2º Dia: Concha Acústica

O Mama quilla abriu o show comprovando a maturidade dos integrantes e das músicas, que embalaram uma Concha Acústica lotada. Debaixo de um sol escaldante, a banda deixou claro que agrada de crianças até idosos, estavam todos envolvidos no balanço do reggae.

O Terra Celta começou em alto astral, fazendo a concha pular ao som das melodias ultra-animadas da banda, com as letras cantadas  em uníssono pela platéia. Infelizmente, o show acabou como um coito interrompido, quando um fusível da aparelhagem queimou. Depois do término abrupto do show, a produção do Demo Sul deu um CD do Terra Celta para uma garota que subiu ao palco e cantou uma música do grupo.

A noite terminou no ritmo forte do ska. Apesar de um ovo atirado de um dos prédios que circundam a Concha, o show do 220 Skabar seguiu sem perder o tom, com a vocalista Thamu dançando e cantando muito, encerrando a noite com muita disposição.

Felipe Melhado

3º Dia: Grêmio

Céu fechado às 16h50 do dia 20 de novembro de 2009. Londrina. Grêmio Recreativo Londrinense. Parece que vai chover hein? “Cara, a essa altura do campeonato eu quero mais é que chova mesmo!”. Estas foram as últimas palavras que ouvi do Marcelo Domingues, organizador do Demosul, antes da caralhada de água que começou naquela tarde e durou quase toda a madrugada.

Era o primeiro dia de shows no Grêmio, e todos eles tiveram que ser transferidos para o palco Sonkey, menor e em um salão fechado. Que merda. O som lá em cima estava horrível no ano passado. Teto baixo, piso liso. O som rebate em tudo e vira uma maçaroca indiscernível. Por sorte eu estava parcialmente errado: os caras aprenderam a lição e neste ano as condições de audibilidade estavam bem mais agradáveis, na medida do possível.

Isto não ficou exatamente claro com o insosso, desafinado e poser show do Versana. Com o Vertix deu pra sacar a diferença, mesmo com a distorção própria do som dos caras. Uma boa apresentação, mas sem surpresas pra quem já conhecia a banda: presença de palco bacana da vocalista Lela e boa performance do Junior, novo guitarrista. Pouco público no recinto ainda, para o desgosto do baixista Pedro, que me contou que a banda teve que tocar antes do horário previsto. Acontece que o Nuda, de Pernambuco, tinha muitos integrantes e não podiam tocar no palco pequeno. Isso acarretou algumas mudanças, e o Vertix teve que fazer o seu som um pouco mais cedo.

Se o pouco que vi do show do Nevilton não empolgou, também não me deixou emputecido. Canções descaradamente pops com um tanto de folk rock (daquele de antes da banalização do termo). Há ali também um tanto do rock gaúcho dos anos 80. A apresentação foi enérgica e coisa e tal, com pulos, gritos e essa coisa toda. O fato é que tive que abandoná-los na metade e fazer toda uma logística para despistar os seguranças e conseguir colocar pra dentro do festival o final de uma garrafa de goró que uns amigos solidários me trouxeram. Foi difícil, mas a cana passou incógnita dentro da latinha de Itaipava.

É por aí que trombo o Marcelo novamente, e ele me diz que tá aliviado. “Em nenhuma edição do Demosul choveu, e eu ficava preocupado pensando no que eu iria fazer quando isso acontecesse! E tá tudo dando muito certo”. Ele disse que foi orientado pela técnica a não fazer o show ao ar livre, porque tavam caindo uns raios violentos, que podiam ser perigosos.

Nos hiatos reservados à libação, perdi o show do Fast Food Brazil, de Sorocaba. E também o do Batuque Muamba Fun, embora este último tenha sido deixado de lado por conveniência. Foi mal, mas ter só boas intenções nunca foi suficiente pra produzir bons sons.

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Curumin

E aí entrou em cena o Curumin, de São Paulo, com seu samba-rock repleto de samples. Boas referências: algo de dub jamaicano e funk e soul brasileiro. Mas faltava algo. O som não tinha corpo, não animava, não fazia dançar. “O Curumin veio e esqueceu a banda”, alguém me disse, zombando do excesso de instrumentos eletrônicos. Sei lá, tenho a impressão de que o público londrinense que freqüenta o Demosul é sempre um pouco avesso à presença de bandas que flertam com a sonoridade do eletrônico. Pelo que consegui captar, o Curumin agradou praticamente apenas aqueles que foram até lá exclusivamente para vê-lo.

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Trilöbit

Mas o Trilöbit é um grupo de música eletrônica (embora tenha a formação clássica dos power trios roqueiros) que conseguiu um público cativo. Também assisti pouco do show dos caras, mas ele me pareceu como sempre. Trilhas fortes e dançantes que hipnotizam e fazem uma parcela da juventude descolada dançar. O som é irreverente, mas sempre acaba me enjoando depois dos 10 minutos iniciais. Mesmo o que é inventivo, quando não se re-inventa e aposta na repetição se torna um pouco entediante.

O conteúdo da inocente latinha de Itaipava já tinha ido pro saco, e, com um empurrãozinho a mais, a minha noção, auto-consciência e coerência comportamental já tava severamente debilitada. Vejo o Nevilton parado em um canto. Resolvo ser um débil-mental: pego o meu gravador e vou entrevistá-lo subitamente.

Eu: Oi, você é o Nevilton?

Nevilton: Sim!

Eu: Você gosta de rock?

Nevilton: Sim, eu gosto!

Eu: E o que você acha da música atual?

Nevilton: Olha… Acho que a música atual é muito da atualidade.

Imbecilidades à parte e embaralhamento da memória idem, alguém me chama de jornalista-alcoolista e eu continuo batendo um papo ali com o Nevilton e mais uma galerinha. Ele me falou da dificuldade de se mobilizar as pessoas para verem um show em Umuarama, da vontade de fazer um documentário sobre a divertida aridez da tal cena local, do dia em que tocaram melhor que o Ratos de Porão e o Pato Fu, entre outras amenidades. Começa o som lá em cima: e era o melhor show da noite, quiçá do Demosul. O Strombólica.

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Strombólica

Tinha escutado uns sons deles antes e confesso que não tinha me empolgado. Mas o show foi muito bacana. O baterista Fernando Thomaz toca impressionantemente bem, marcando o ritmo de uma maneira maluca. O som tem um lance daquela MPB mais psicodélica, do tipo Secos e Molhados, sem deixar de pesar o som e ao mesmo tempo incorporar elementos do jazz. Em alguns momentos dava pra ouvir a possível influência da Vanguarda Paulistana por ali também.

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Rogério Skylab

E por último o show do Rogério Skylab, que já estava ganho antes de começar. Com presença de palco um tanto teatral, Skylab era um pseudo Iggy Pop nerd, entoando suas já consagradas canções ultrajantes. A primeira noite me fez ir embora com os infames versos na cabeça: “Cadê minha cueca cadê minha cueca… Aqui ó! Aqui ó!”.

4º Dia: Grêmio. De novo.

Pro sábado cheguei obviamente mais cozido, e perdi metade das bandas por incapacidade de levantar a bunda do desconfortável banquinho de concreto. Com a ressaca sendo gradativamente superada pelos novos goles de cerveja, fiquei curioso pra ver como estavam tocando os caras do The Brown Vampire Catz. Um certo saudosismo da minha puberdade, época em que freqüentei vários shows deles. E continuam fazendo um bom trabalho: um som reto, divertido, com solos simples mas muito eficientes do guitarrista Preto Aranha.

De longe vi também o show do Gilbertos Comem Bacon, de Brasília. Como disse um amigo, parece que os caras pararam nos anos 90. Essa mistureba de sonoridades puxadas para o hardcore não me empolga mais.

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Nuda

Aí vi também o show do Nuda, de Pernambuco, que foi razoável. Me interessou algumas experiências ali que eles fizeram com a ajuda da percussão. Acho que os caras realmente podem ser (ao contrário de outras bandas que costumam ser atreladas a este quase-gênero) enquadrados naquilo que se costuma chamar de “pós mangue beat”, no sentido de que absorveram a sonoridade daquela geração mas também já a superaram. Talvez amadureçam isto e façam ainda melhor daqui há uns anos.

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Wander Wildner

O Wander Wildner fez uma apresentação muito boa, a melhor da noite. Vi um show dele muito meia-boca no começo deste ano no Bar Valentino, o que tinha me deixado com um pé atrás, embora eu seja um fã do trampo dele. Mas, ainda bem, tudo estava de volta ao normal, e as suas baladas punk-bregas tinham recuperado aquele peso certeiramente dosado. O público, que era maior do que no dia anterior, se empolgou bastante, o que, em certa medida, contribuiu para a dispersão do pessoal no último show da noite, o do Autoramas.

Autoramas

Autoramas

Foi o primeiro show da fase atual, só com instrumentos acústicos. O trampo foi o resultado do projeto MTV Apresenta Autoramas Desplugado (o álbum completo está disponível para download neste link). As versões de algumas músicas antigas ficaram mais puxadas para o rockabilly. Mas o show foi fraco, e eles tocaram pouco.

E este foi o fim do Demosul 2009, que conseguiu, na medida do possível, tirar o leite da pedra e se virar exemplarmente mesmo com o corte de verbas. Que a Petrobras nos abençoe em 2010.

Créditos:

Fotos por Pablo H. Blanco

Responses

  1. Anônimo says:

    dezembro 1st, 2009at 14:51(#)

    Que merda hein mano

  2. carlos says:

    dezembro 1st, 2009at 20:29(#)

    Digno de quem participou do Demo Sul.
    Só ressalto uma coisa.
    Oh Oh Oh Tem cigarro aí???

  3. Sr. Quarck says:

    dezembro 2nd, 2009at 7:18(#)

    MELHADO JÁ SOU TEU FÃ, VC NÃO TEM PREGUIÇA…PARABENS

  4. Sabrina says:

    dezembro 3rd, 2009at 9:06(#)

    Realmente Melhado… deu mais uns flash de memoria da minha noite!
    Adorei o texto!

  5. Daniel says:

    dezembro 3rd, 2009at 9:22(#)

    Que 2010 reserve um lugar ao (demo)sul

  6. Marcelo says:

    fevereiro 12th, 2010at 23:27(#)

    2009 foi tão bom qto 2008 … parabéns ao meu chará e toda sua equipe.

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