Cabaré Revival

dezembro 18th, 2009  |  Publicado em ouvir  |  4 Comments

Por Felipe Melhado

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E se a Vila Matos ainda existisse? Conheça o Cabaré da Confraria

Ângelo Val chegou a Londrina em meados da década de 40. Na década seguinte, adolescente, ia com a molecada tomar soda nos cabarés da cidade. Entrava sem pagar por ser amigo das donas. Nesses ambientes conhecia indivíduos caricatos, autênticos, personagens de vidas noturnas agitadas, cheias de histórias de brigas, paixões e bebedeiras. Nas casas de tolerância da Rua Rio Grande do Sul e da Vila Matos, Ângelo viveu aventuras e viu grandes shows. Conheceu Cauby Peixoto, Roberto Luna, e ícones do meretrício londrinense: Selma, Laura, Diana, Jô.  Mulheres que precisavam ser conquistadas sentimentalmente, e não só com (muito) dinheiro.

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Cerca de vinte anos mais tarde, casado, Ângelo teve uma filha: Nádia. Para fazê-la dormir, sua esposa contava histórias de fadas e princesas. Ele, de cabarés.  “Eu cresci com este imaginário dos cabarés, desta atmosfera rica e empolgante”, conta Nádia. “Meu pai não foi só a maior referência para pensar neste espetáculo, mas também um grande incentivador, que ajudou muito na construção”.

Nádia está falando do Cabaré da Confraria. O grupo cênico-musical vem se apresentando em Londrina desde julho deste ano. A proposta é montar um espetáculo imaginando como seriam as apresentações de um cabaré hoje, compondo uma atmosfera que tenta dar vida a um presente onde as antigas casas ainda não tivessem sido fechadas e a cultura glamourosa e erudita destes lugares não houvesse se perdido. Tudo isto em um clima celebratório, com fartas doses de humor e improviso. Além do vermute, é claro.

Nádia Val, Edna Aguiar, Patrícia Custódio e Antônio Costa são os atores-cantores que emprestam suas vozes e corpos para as almas deste cabaré. As personagens têm nomes de bairros londrinenses: Parigot de Souza (a Gogô), Aquiles Stenghel, Patrimônio Regina e Vivi Xavier, que, desiludida, quer se tornar Gleba Palhano. Entre uma música e outra, eles se revezam contando histórias apaixonadas e bêbadas, tudo improvisadamente. “Nós só combinamos as deixas para os músicos saberem quando devem começar a tocar”, conta Patrícia, “O resto a gente vai improvisando de acordo com o envolvimento do público”. O clima de descontração e aparente descompromisso dá espaço para acontecimentos inesperados, como a participação especial do folclórico Nego Bala. Ele subiu ao palco do Valentino na estréia do Cabaré falando em inglês e destilando mensagens de felicidade. “A gente queria que ele participasse de todos os espetáculos”, admite Nádia.

O Cabaré da Confraria tem direção musical de Luciano Silva. O repertório é baseado em tangos, salsas, rumbas e outros ritmos que costumavam rolar nos cabarés dos anos 50. Mas a ideia não é se prender à sonoridade da época, e sim realizar uma releitura incorporando elementos estéticos atuais.  Por isso eles executam, por exemplo, uma versão cubana de Man In The Box, do Alice In Chains, e Yo Viviré (versão em espanhol de Celia Cruz para I Will Survive).  “As bases dos arranjos são todas minhas, com exceção da versão de Radinho de Pilha, do Genival Lacerda, que é do Antônio”, diz Luciano. “Mas na verdade, nos ensaios, os arranjos vão sendos compostos coletivamente”. Nos shows ainda costumam aparecer versões para músicas do Chaminé Batom, Nancy Sinatra, As Frenéticas, entre outras.

“Quando começamos a idealizar o espetáculo, meu pai indicou cerca de mil músicas para o nosso repertório, o que nos ajudou a pesquisar a sonoridade dos cabarés”, conta Nádia. Infelizmente, o Cabaré da Confraria acabou estreando pouco depois de Ângelo ter falecido. “Por isso o espetáculo não é apenas dedicado a ele, mas como ele foi nossa primeira e maior fonte de pesquisa, ajudou muito também a produzir a atmosfera que queríamos”, diz Nádia.

Nos shows, Luciano Silva toca um violão MIDI ligado a um aparelho que sintetiza o som de vários instrumentos, passeando de piano a acordeom. A banda ainda conta com Pedro Potumati no violão, Ricardo Penha no contrabaixo acústico e André Vercelino na bateria (que a partir de agora deve ser substituído vez ou outra por Eduardo Horato). Fora Edna Aguiar e Antônio Costa, que já cantavam, as outras duas band-leaders são novas no ofício de vocalista. “Tivemos preparação vocal com o Fabrício Fonseca (da banda Hocus Pocus)”, diz Nádia, “mas não temos a pretensão de sermos impecáveis tecnicamente. É um pouco como as artistas de cabaré, que não eram cantoras mas precisavam subir no palco porque tinham um público a ser entretido”.

O figurino, como não poderia deixar de ser, também remete às roupas usadas nos cabarés de 60 anos atrás: colares de pérola, rococós, luvas, chapéus. Tudo assinado pelo estilista Nélio Pinheiro. A maquiagem, igualmente adequada, é de Silvio Reis.

Desde o início das apresentações até o fim deste ano, algumas modificações foram feitas. “O espetáculo, como é muito baseado no improviso, nunca é o mesmo”, diz Patrícia. Para Nádia, os personagens já ganharam vida própria. “Embora eles sejam baseados nas caricaturas de pessoas reais que viveram em Londrina na década de 50, eles são bastante autênticos”, conta. “São quase como uns santos que baixam na gente. Agora eles ficaram orgânicos, não têm mais limites”.

O plano para 2010 é fazer o Cabaré circular por outras cidades. Ainda em janeiro eles devem apresentar pelo menos mais dois espetáculos em Londrina. “Queremos continuar interpretando essas almas que não saíram destes ambientes extintos”, diz Nádia.

Dessa forma, as personagens desta Confraria mantêm viva a atmosfera de uma Londrina cuja história oficial não tem conseguido mais tornar obscura. Dão novo ar, por meio da arte, às histórias de loucura, paixão e alcoolismo que por bastante tempo figuraram apenas nas páginas dos cadernos policiais e nas experiências veladas dos pais de família. E além de tudo, é bem divertido.

Foto da Virada Cultural Funcart por Ivan Nishi

Foto do ensaio por Ivana Camargo

Edição das fotos por Carlos Angelo

Vídeos:

http://www.youtube.com/watch?v=F0vw2iy3u5A&NR=1

http://www.youtube.com/watch?v=tDz8iwV7Cps&NR=1

Responses

  1. Nádia Val says:

    dezembro 18th, 2009at 22:04(#)

    Mon Dieu, tô arrepiada! Ficou linda a matéria, Felipe!!! Vc conseguiu captar muito o espírito do espetáculo! Tô achando que vc já foi até fisgado pela Confraria, já é um dos nossos!!! Parabéns e muito obrigada!!! (vou colocar o link no nosso blog, ok?).

  2. Mariana Brandão says:

    dezembro 19th, 2009at 12:21(#)

    Adoro adoro adoro adoro!! Sinto orgulho de fazer parte da familia e, mais do que ninguém, não vejo a hora do Cabaré vir prestigiar Curitiba com esse espetáculo inesquecível!

  3. C. Angelo says:

    janeiro 5th, 2010at 10:25(#)

    Puxa, como pode eles terem se apresentado o ano todo e eu não os vi nenhuma vez. Tenho que sair mais de casa, hehehe.
    Parabéns pela matéria.

  4. Cabaré da Confraria :: A Rotativa says:

    fevereiro 3rd, 2010at 12:35(#)

    [...] Para saber mais sobre o Cabaré da Confraria leia a reportagem de Felipe Melhado aqui [...]

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