A Mulher das Palavras – Entrevista

novembro 24th, 2009  |  Publicado em ouvir  |  3 Comments

Por Felipe Melhado

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Karen Debértolis e a performance da palavra nos sons e nas letras.

No dia 27 de novembro, a poeta e jornalista Karen Debértolis lançou o resultado de sua primeira experiência artística em suporte sonoro. “A Mulher das Palavras” é o nome do álbum. O trabalho foi uma tentativa bem sucedida de provocar um diálogo entre música e poesia falada, propondo reconfigurações de poemas já publicados pela escritora e outros até então inéditos.

A Rotativa entrevistou Karen para tentar investigar um pouco mais sobre as possibilidades que podem ser estabelecidas por meio desta fusão natural entre poesia e som. Porque como dizia o poeta simbolista francês Paul Valéry, a poesia nada mais é do que uma hesitação entre o som e o sentido.

Rotativa: Não deve ser fácil pensar sobre isso, mas pelo que você se apaixonou primeiro, pela música ou pela poesia?

Karen: Eu me apaixonei pela palavra, né. E conseqüentemente a música veio na seqüência. Mas eu sempre me interessei por essas duas áreas e descobri muito cedo que meu lance era a palavra mesmo. Era isso que eu queria, isso que eu queria trabalhar, tanto como linguagem artística como também na atuação profissional, no campo do jornalismo. Então a palavra foi a primeira paixão.

R: Trabalhar com poesia envolve conseguir ritmo, rima, e outros elementos que são próprios da música. A sua poesia tem essa característica sonora intrínseca?

K: Com certeza. A poesia, como você falou, já tem uma sonoridade própria. Ela tem uma musicalidade na construção seja uma poesia mais formal, com metrificação, ou seja uma poesia mais livre, mais experimental. Sempre vai haver uma musicalidade. A gente pode pensar numa produção um pouco mais racional como é a poesia concreta, que a gente também tem uma sonoridade. Na releitura que fizeram há alguns anos atrás, nos 50 anos da poesia concreta, isto ficou claro na exposição. Nessa releitura eles usaram muitos equipamentos digitais e puderam verificar a sonoridade que estava presente na construção daquele trabalho.

R: E como foi pra você a experiência de ouvir sua poesia, como aconteceu essa transposição?

K: Acho que foi uma experiência muito interessante. Antes de tudo eu tive que descobrir a minha voz. Eu decidi que queria fazer as leituras, e a partir daí comecei a descobrir essa construção. E foi engraçado que no processo de produção do CD, alguns textos que inicialmente eram textos que estavam escritos e tinham uma concretude da palavra na página em branco, ou no computador, no momento em que a gente gravou no estúdio, o próprio texto pediu modificações, uma nova edição. Por exemplo em termos de pontuação pra dar outros sentidos, algumas ênfases, para trazer outras sonoridades, até na mudança de determinadas frases que na oralidade ficavam melhor. Quando você transpõe um texto escrito para a leitura em voz alta não tem como você não ter uma modificação. É inerente.

R: E pra quem escuta, no que difere o escutar do ler? Muda bastante?

K: Acho que vai mudar, certamente. Quando o texto está no papel, o leitor lê da forma que ele quer, e no CD eu tô dando uma leitura, um clima praquele texto, que é um clima a partir da minha própria visão e do trabalho que foi feito coletivamente. Tem a produção do Bruno [Morais], dos músicos (Mizão, Flávio Nunes, Leonardo Cacione, Filipe Barthem, Rafael Fuca, André Vercelino e Edna Aguiar). É uma leitura nossa: minha, com a minha voz, e nossa no sentido de ter aquela música que é daquele jeito acompanhando aquele texto. Provavelmente o leitor que conhece o texto vai descobrir outras coisas nele, outras entonações que ele a princípio não tinha pensado.

R: É fácil visualizar várias iniciativas que unem música e poesia de uma forma espontânea. Porque você acha que isso acontece? É uma característica mesmo da poesia ou é uma memória ancestral que nós temos, pelo fato das duas artes realmente terem nascido juntas?

K: Sempre essa relação da poesia com a música tá sendo retomada, né. Tem lá os trovadores, e depois disso ela se perde um pouco pela própria criação da impressão que provoca um distanciamento da oralidade, que é uma coisa cultural. Mas sempre tem essa retomada da sonoridade da poesia. A gente pode falar dos beatniks, na década de 50, depois também temos muitas experiências na década de 60. Têm muitos poetas que estão trabalhando com esta questão hoje, como o próprio Enzo Minarelli que veio no FILO deste ano, que é um cara que trabalha há muitos anos com isso, desde a década de 70. Mas o que eu acho que tem de característica na sociedade contemporânea é que na pós-modernidade a gente tem uma quebra de barreiras e fronteiras de tudo. Inclusive dos gêneros. Hoje você tem uma relação entre as linguagens artísticas que não tem limite, é muito mais fluida. Então você vê a literatura estabelecendo relação com as artes plásticas, com a música. Dentro da própria literatura você tem quebras de paradigmas. O romance até então tinha uma determinada estrutura e hoje tem muitas coisas que não tem essa estrutura clássica mas não deixam de ser romance. Eu acho que uma das coisas é que esse limite muito rígido dos gêneros não existe mais pela própria questão da pós-modernidade.

R: Você falou dos beats, que com o Kerouac tinha o lance de tentar imprimir a sonoridade do jazz por meio de uma prosa espontânea. Mas para o Ezra Pound a poesia está mais próxima da música do que da literatura, no sentido de que a prosa, para ele, não é musical. Como você vê isso? Você acha que a prosa é tão musicalizavel quanto a poesia?

Karen: Eu acho que sim. Dá pra você construir uma prosa com musicalidade, como é a prosa poética, que se consolida no século XX. É gostoso brincar com essa musicalidade da palavra dentro da prosa. É justamente o que eu tava falando, da falta de limites dos gêneros, que possibilita experimentar tudo, em todos os sentidos.

Para ouvir: www.myspace.com/karendebertolis

Créditos:

Foto de Fábio Gatti

Responses

  1. A Mulher das Palavras – Lançamento :: A Rotativa says:

    novembro 24th, 2009at 22:23(#)

    [...] Confira a entrevista com Karen Debértolis. [...]

  2. Sr. Quarck says:

    novembro 26th, 2009at 16:35(#)

    Tombo Melhado…super entrevista mais uma azzarrancia total da rotativa

  3. Programe-se :: A Rotativa says:

    dezembro 3rd, 2009at 13:47(#)

    [...] “Escuta Comentada com Karen Debértolis” – A jornalista e poeta Karen Debértolis vai participar de um bate-papo sobre o seu álbum “A Mulher das Palavras”, lançado na última sexta-feira. O encontro começa às 19h nas Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL (Av. JK, 1973). A entrada é franca. A escuta comentada também vai ser realizada amanhã, às 10h, na Biblioteca Municipal de Londrina (Av. Rio de Janeiro, 413). Leia mais na seção Ouvir. [...]

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