Uma cena fala mais que mil filmes

outubro 21st, 2009  |  Publicado em olhar

Por Daniel de O. Figueiredo

Algumas filmografias, de diretores, atores, roteiristas, ou qualquer outra ocupação na indústria, nos colocam apenas como consumidores. Somos, até o limite, envolvidos por coisas repetitivas. Nossa posição de consumidor é levada ao limite de compradores do mesmo, do mesmo de sempre. Filmes de guerra, terror japonês refilmado, melodrama com final triste, comédia bonitinha, suspense intricado, roteiros com reviravolta, ação “inteligente”, entre mais outros. Sem falar nas constantes adaptações, readaptações, (re)readaptações, chupões e cópias (plágios).

Restam-nos duas atitudes, numa ótica maniqueísta: parar de ir ao cinema e à locadora ou submergir nesse monte de coisa igual. Como não conseguimos, nenhuma nem outra, vamos, para todo o além, buscar avidamente por coisas novas, instigantes, originais e criativas. Via de regra (permita-me um desabafo exagerado), cineastas não-estadunidenses são os únicos que atualmente ainda nos permitem pensar e interagir com a tela de maneira profícua, densa. São os únicos que nos tratam como público, na acepção pós-moderna do termo, qual seja, pessoas que constroem significados junto com o filme, agem e se comportam a completar a obra.

Guillermo Del Toro, mexicano de nascimento, produz, roteiriza e dirige, em 2006, a película El Laberinto del Fauno. A história conta o recorte de vida de uma garota que, atolada pela violência gerada por uma guerra civil na Espanha, se deixa absorver pelo mundo mágico de um fauno e monstros. Filha de mãe recém-casada com general, sofre com o ambiente e situação em que se encontra.

Por mais que possamos discutir os meios encontrados por uma criança para se desfazer da realidade e mergulhar em uma piscina azul cristalina, de paz, brincadeiras e doces (veja o trecho do banquete e a criatura sem olhos), certa cena nos interessa aqui de jeito especial. Tal cena nos faz público, não consumidor. Faz-nos inteligentes, não passivos.

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Alegremente o general, autor ditatorial das atrocidades que acontecem no vilarejo, faz a barba em seu cômodo. Cantarola e assovia a melodia que um disco de vinil apresenta em sua vitrola. Ao olharmos com cuidado, ele barbeia com uma navalha a face esquerda. Cuidadosamente retira o creme de barbear branco com o instrumento e percebe uma pele lisa e perfeita, feliz com a música e seu controle da situação.

Não se entende porque tanto tempo vemos essa cena. O general se barbeando de frente para o espelho. Com um giro de câmera de 180 graus, de repente olhamos para o espelho, enquanto o personagem se prepara para a face direita. Ao começar, a música pára, ele se corta e o sangue escorre. Novo giro na câmera e voltamos à posição inicial.

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Com quase três minutos, del Toro realiza uma cena que vale o filme, sua filmografia, qualquer tentativa de construir um significado político num barbear. O sangue escorre na face direita, naquela autoritária, de extremidade política, em que a música não mais toca. Vemos isso por um espelho, uma representação da realidade. Uma metáfora. A direita fascista da Espanha, que reage contra a resistência campesina, escorre o sangue da população, manchando não apenas os campos e lares que se vê no filme, mas também o branco imaculado do creme de barbear. O humor muda, a iluminação escurece e a cena acaba.

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