Perfeição: um grande defeito
fevereiro 25th, 2010 | Publicado em olhar, recentes | 13 Comments
Por Daniel de Oliveira Figueiredo
“Perfezione è imperfetta; e il più completo, meno accorto”.
Para ler escutando Long Nights e Rise, de Eddie Vedder
Galileu afirma (com tradução livre) em sua obra Sidereus Nuncius (conhecido como “Mensageiro sideral”, e também como “Mensagem sideral”, é um folheto de 24 páginas escrito em latim e publicado em Veneza, em março de 1610) que a perfeição é imperfeita e que quanto mais completa for a obra, menos destaque, menos ela é percebida.
No ano de 2007, Sean Penn escreve, produz e dirige o filme “Na Natureza Selvagem”, adaptando a história do jovem Christopher McCandless em sua jornada ao Alasca, contada no livro de Jon Krakauer. Em busca de ideais e liberdade absoluta, Chris abandona todos seus rastros mundanos (entenda-se documentos, universidade, dinheiro, família e amigos) e parte para uma viagem solitária para o norte, aqui visto não apenas como um ponto cardeal de orientação, mas como um destino, uma busca. A história, relatada no filme e no livro, apresenta os problemas, reflexões e encontros dessa caminhada de Alexander Supertramp, codinome incorporado pelo personagem principal.
Angelo Moscariello, autor italiano de “Como ver um filme”, introduz suas discussões sobre cinema descrevendo alguns dos aspectos primordiais para a construção da linguagem fílmica. Roteiro, fotografia, direção, interpretação, trilha sonora, entre outros. Todas essas partes compõem obras inesquecíveis do cinema mundial, ainda que algumas delas tenham mais destaques que outras.
Sean Penn, em 2007, talvez tenha alcançado a perfeição. Com um roteiro limpo e preciso, adornado de autores como Jack London, Henry David Thoreau e Boris Pasternak, o roteirista atinge um formato de reflexão constituído de vários graus de compreensão, em que quanto mais fundo for o expectador, mais engrandecida é a recompensa. Levado por situações e diálogos, o filme é capaz de um encantamento lúcido digno dos autores que o protagonista leva consigo na mochila. Cada personagem que interfere na jornada do herói (muito mais direta e límpida que o famoso arquétipo mítico da vida de um herói do cinema) traz à tona discussões existencialistas e da presença dos outros em nossas vidas, permeadas de um sentimento naturalista e de um pensamento bucólico.
A direção e as interpretações são tão simples quanto complexas. A montagem e edição, sabidamente capitaneadas pelo diretor e indicadas ao Oscar, ditam o ritmo do filme em direção ao destino de Supertramp e inserem na película, de forma não-linear, as pessoas que definiram (ou tentaram) a caminhada do personagem. Fica nítido o carinho do diretor para com a história, ao envolver a família e amigos da figura real, bem como a dedicação dos atores para com seus papéis, com menções honrosas para Emile Hirsch (Christopher McCandless), com transformações corporais e inúmeras buscas por referências, e para Hal Holbrook (Ron Franz), indicado à prêmios e dono do conjunto diálogo&cena mais reverenciado do filme.
Como se não fosse o bastante, é na trilha sonora e na fotografia que a obra chega a outro patamar. Eddie Vedder, uma das melhores escolhas para o filme, compõe 11 canções originais que completam de maneira incrível as cenas e preocupações do diretor. Com letras densas e melodias acertadas, o vocalista da banda Pearl Jam entrega uma das mais notáveis trilhas do cinema, contando menos com canções únicas espetaculares e mais com um conjunto de musicas formidáveis, que de certa forma cola perfeitamente na banda sonora da película de exibição.
Já na fotografia, há consistência e beleza. Mais do que enquadramentos, composições e iluminação, a fotografia de “Na Natureza Selvagem” é única e diferencial. Alternando planos abertos, grandiosos e claros (como já é costumeiro em belos filmes que têm a natureza como personagem), com planos urbanos, fechados e cinzas (construindo paralelos do natural com a cidade), a direção de fotografia do filme constrói uma maneira especial de se olhar para a tela, em que a câmera não é mais ponto de vista e, sim, coração. Como na última cena, onde é empregado um recurso de lente arriscado e evitado por muitos diretores. No desfecho da narrativa, após uma seqüência forte de roteiro, nos deparamos com um zoom – out, que, metaforicamente, cria um movimento de distanciamento do espectador da cena, movimento inverso de imersão na historia. Tal recurso é de tamanha precisão que não apenas mitifica a figura de Chris McCandless, como nos lembra de que é preciso, também, respirar.
De tão completo, esse filme poderia ser considerado perfeito. Porém, e como já dizia Galileu, isso pode não ser tão bom. “Na Natureza Selvagem” passou despercebido para muitos, merecendo ser encontrado e avaliado. Recomendadíssimo.






fevereiro 26th, 2010at 9:50(#)
“A felicidade só é verdadeira se for compartilhada”
realmente é muito bom esse filme
fevereiro 26th, 2010at 20:06(#)
Puxa, um amigo comentou tanto sobre esse filme, que fiquei com vontade de ver. Agora, sob o olhar atento de Daniel Figueiredo, a vontade de contemplar a produção de Sean Penn aumentou.
Como sempre um ótimo texto.
fevereiro 27th, 2010at 19:53(#)
Um filme PERFEITO, e como foi brilhantemente colocado pelo autor do texto:
“quanto mais fundo for o expectador, mais engrandecida é a recompensa”.
O texto, mais uma vez, surpreendente!
fevereiro 27th, 2010at 21:16(#)
O filme é pura reflexão, ou seja, com ele articula-se por onde já se passou, por aquilo que o homem faz e as expectativas que cada um aguarda dentro de si.
Uma baita história recheada de recursos fantásticos!
fevereiro 28th, 2010at 17:58(#)
Assistimos ao filme e realmente é muito bom.
Porém um texto com uma análise tão bem feita e com tanto conhecimento, faz com que possamos valoriar mais o filme e surge a vontade de assisti-lo novamente, com a atenção nos detalhes mencionados.
Excelente texto. Parabéns ao autor.
Rísia e Daniel.
fevereiro 28th, 2010at 19:01(#)
Parabéns Daniel mais uma vez!!!!! Além de possuir o filme em minha coletânea, também tenho a trilha sonora….. Triste daquele que não desfrutar desta intensa, lúdica e reflexiva história. Mais uma vez sua resenha nos faz abordar novos aspectos e ler seus textos, bom, “a felicidade só é real se for compartilhada”………Abraço!
fevereiro 28th, 2010at 22:35(#)
Grande Daniel, ótimo texto!
Ganhou mais um leitor!!
abração
fevereiro 28th, 2010at 22:48(#)
Realmente, esse filme me é especial. Tenho DVD na estante, CD da trilha original na estante, livro na estante e cartaz emoldurado na parede. E nada como colocar pra fora aquilo que sinto.
março 1st, 2010at 11:33(#)
Parabéns por mais uma genial crítica. Depois de algum tempo sem os comentários de Daniel Figueiredo, seu retorno vem com “chave de ouro”.
O filme realmente é belíssimo e todos deveriam ver.
Abraços,
Marina
março 1st, 2010at 13:42(#)
Já tinha visto esse filme fazem alguns meses e realmente passou despercebido.
Mas, após essa análise do autor, confesso que talvez não tenha dado a atenção merecida ao filme!
Ficou agora a vontade de assisti-lo e reavalia-lo novamente a partir desse novo ponto de vista!
Parabéns pelo texto!
março 3rd, 2010at 23:33(#)
Dan,
A melhor ánálise do filme que já cansamos de analisar (eu leigamente) nas noites explicadas pelo próprio Eddie Vedder (when you think more than you want, your thoughts begin to bleed).
Parabéns.
março 5th, 2010at 23:27(#)
Daniel,
parabens pelo texto, alem de excelente analise cinematografica, nos brinda tambem com um grande acervo cultural.
Pode anotar mais um leitor!
Abraco
Adriano
março 13th, 2010at 11:25(#)
O filme é incrivel,
o texto idem!
Parabens!