Rio de Janeiro, cidade desespero II
novembro 19th, 2009 | Publicado em agir | 2 Comments
Por Elias Barreiros
Durante essa semana algumas notícias falaram do aumento de verba para segurança pública do Rio de Janeiro, para combater a tal criminalidade. Dizem por aí que o Estado está ausente nos morros e favelas do Brasil, e por isso os traficantes tomaram conta. A questão é que o Estado não está, e nunca esteve ausente, o problema é que ele está presente de modo precário. É simples, lá existe Saúde e Educação Pública e portanto existe Estado.
Eis o grande problema, ao meu ver, aquela população só pode contar com o Estado quando é para enfrentar as filas do SUS e os bancos de uma escola que está longe de atender anseios básicos dos sujeitos. O que não falta pra esses sujeitos é criatividade e desejo de produzir coisas belas, o que pode ser visto quando existe uma bola nas mãos ou nos pés de meninos e meninas, quando se ouve a riqueza das palavras expressas num número absurdo de expressões e gírias, nos grafismos das pixações e dos grafites, na criação da música: seja funk, rap ou samba. Ou seja, em todos aqueles momentos em que se é livre para criar com prazer e espontaneidade, temos uma infinidade de possibilidades de reflexão e criação de conhecimentos.
Agora, ao invés de investirmos numa educação formal que possa acompanhar essa produção espontânea e transformá-la em uma produção coletiva de conhecimentos, nós vamos investir algumas centenas de milhões em armamento e, por conseqüência, na corrupção policial. Policiais esses que foram formados por essa mesma escola pública reprodutora de informações rasas e superficiais, de pouco ou nenhum estímulo à invenção, criação e senso crítico.
Nós continuamos falando em fechar as fronteiras para dificultar a entrada de drogas e armas, em reprimir usuários de substâncias psicoativas ao invés de falarmos em descriminalização das drogas. Nós vamos continuar batendo na mesma tecla da repressão policial e falando em aumento vertiginoso dos índices de alfabetização como vem fazendo o Governo Federal, de fato formamos muito mais pessoas no ensino fundamental, médio e superior, mas que formação é essa?
Também está sendo anunciado pelo governo federal um aumento de verbas para a Educação, bem como o aumento de tempo que os jovens e crianças vão passar na escola, o que vai acabar absorvendo esse dinheirinho a mais. Ou seja, mais dinheiro e também mais tempo de permanência na escola é igual a mudança nenhuma, porque a questão não está na permanência na escola, pois já temos uma porcentagem considerável de pessoas em idade escolar matriculados.
De nada adianta permanecer na escola da forma como ela é hoje, o problema vai permanecer porque os professores vão continuar sobrecarregados tendo que dar 45, 50 horas aulas semanais, sem tempo de ir ao cinema, ao teatro, de lerem um romance, de se dedicar ao ócio produtivo, isto é, de ter experiências fora da educação formal para poder discutir e compartilhar com os estudantes outras possibilidades de conhecimento.
Fora isso, como podemos esperar que os estudantes aproveitem esse tempo na escola quando eles sabem que aquilo de fato nada vai mudar em suas expectativas de vida, quando eles sabem que ao completarem o ensino fundamental vão se deparar com um mundo em que quase de nada serve aqueles conhecimentos mal adquiridos na escola pública.
Mesmo que mude a escola, mas não haja uma transformação sensível na qualidade de vida das pessoas, de suas moradias e áreas de lazer, de suas possibilidades de consumo, vai continuar a pairar uma nuvem de desencanto em suas cabeças.
Bom, mas o que fazer então, pois não vai ser possível mudar estruturalmente a vida dessas famílias, isto é fato. Eu acho que um caminho mais curto seria o de uma grande transformação no acesso dessas pessoas, a começar pelas crianças, ao universo da literatura. Isto mesmo, já que a realidade não vai mudar, porque não dar possibilidades mais claras de imaginar realidades outras, de sonhar com um mundo fantástico? Só o livro pode fazer isso.
Mas acho que não cabe mais o Machado de Assis, por mais incrível que seja, é hora de lermos outras coisas na escola, é hora de lermos o agora, os clássicos brasileiros vão ser descobertos depois, com calma e com a experiência de quem já aprendeu a se divertir com as palavras. Vamos trocar José de Alencar por Ferréz, Fernando Pessoa por Leminsk.
Créditos
Ilustração por Pablo Blanco



novembro 20th, 2009at 6:53(#)
Opa educação de qualidade é sempre uma boa pedida.
Grana para a educação não falta, no entanto, a teia que estrutura e distribui esses recursos é tão melindrosa e pegajosa que supostamente se dispersará antes de um final feliz.
Mais uma vez, òtimo texto Elias.
novembro 22nd, 2009at 20:54(#)
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Olha cara, quem tem que ter medo é quem não tá lá, não aprendeu a viver, a chorar, e também não sabe sorrir.
todo ponto tem um nó, todo nó tem um baralho, todo baralho tem um destino.
só chora quem deixou o gozo passar, quem gozou não chora, descansa.
Trata de gozar, cara, trata de gozar!
Jake
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