Possibilidades e Frustrações

novembro 30th, 2009  |  Publicado em agir  |  5 Comments

Por Felipe Melhado

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Rádios comunitárias de Londrina vivem aquém de suas possibilidades e sobrevivem como podem.

Divino Luciano Belmiro tem a voz lenta, arrastada. Fala pausadamente como quem já se acomodou à sua situação. “Fazer rádio comunitária é complicado. No papel é uma coisa, fazer na prática é outra. Se for seguir o que era pra ser, a gente não consegue nem pagar as contas de luz e de água, o que seria o básico”, se justifica de uma maneira que deixa transparecer uma conclusão de anos de pensamentos remoídos.

radiocincao002_mediaDivino trabalha na Cincão FM, a primeira rádio comunitária londrinense, que existe há 5 anos no Cinco Conjuntos. Ele é o único funcionário fixo da emissora. Atua como locutor, faxineiro, administrador e o que mais pintar. “Tou sempre fazendo duas ou mais coisas. Quando chego em casa minha cabeça tá a mil”, conta.

O pedido de concessão para o funcionamento da Cincão foi encaminhado no mesmo ano em que a Lei que versa sobre o Serviço de Radiodifusão Comunitária foi sancionada: 1998. Naquela época, algumas associações, além de rádios livres e piratas, pressionavam o governo visando a regulamentação de suas atividades. Temendo os grandes coronéis da comunicação brasileira, a solução do governo foi encontrar um paliativo, algo que acalmasse os militantes e que, ao mesmo tempo, favorecesse aos empresários do ramo. Deste contexto nasceu a Lei 9.612.

“As rádios precisam transgredir as normas se quiserem sobreviver”, explica Elsa Caldeira, jornalista e especialista em comunicação comunitária. “Na Lei, qualquer ameaça que uma rádio comunitária cause a um meio de comunicação com concessão comercial implica em seu fechamento”, explica. Mas não é só isso. A legislação impõe uma série de regras que restringem o alcance das rádios comunitárias, limitam a sua arrecadação impondo um indefinível conceito de “apoio cultural” (uma espécie anúncio brando), além de dificultar a sua implantação ao máximo, criando uma série de burocracias e prazos que emperram o pedido de concessão. “Também é praticamente impossível abrir uma rádio comunitária sem ter algum apadrinhamento político”, diz Elsa. “Esta Lei foi criada com o intuito de tornar impraticável aquilo que ela regulamenta”, conclui.

Em 2004, o governo Lula foi denunciado à Comissão de Direitos Humanos da OEA por esta legislação repressiva. A elaboração de novas propostas de lei foram anunciadas. Nada foi feito. Em 2007, um recorde: 2 mil emissoras entre comunitárias, livres e piratas foram fechadas pela Anatel. Uma média de 5 por dia, incluindo sábados e domingos.

A outra rádio comunitária londrinense em funcionamento é a Mais FM, que até maio de 2009 se chamava Dinâmica. Instalada no Jardim Maria Lúcia, na Zona Oeste, em uma casa simples, e sobrevivendo na precariedade, a rádio nunca conseguiu funcionar em suas plenas potencialidades. “A gente tá lutando com muita dificuldade mesmo”, conta Guto Clemente, um dos fundadores da emissora, “O povo ainda não descobriu o real valor e a função de uma rádio comunitária”.

Em Londrina, a falta de apoio dos moradores da comunidade parece ser uma unanimidade entre os diretores das rádios comunitárias, e também um empecilho que dificulta o funcionamento das emissoras. “A rádio tá aberta a parcerias. Acontece que a sociedade não tá engajada na nossa luta”, concorda Divino. “As pessoas parecem que têm medo do rádio, não se interessam”. radiocincao003_media

Para Elsa Caldeira, no entanto, as rádios londrinenses ainda se abrem muito pouco à comunidade. “Acho que falta sim um incentivo do próprio governo para apoiar a participação popular e criar mão-de-obra especializada para trabalhar em rádios comunitárias”, pondera. “Mas mesmo com as dificuldades é possível fazer um trabalho de sensibilização e conseguir que a comunidade compre a briga”. Para Elsa, as emissoras londrinenses têm optado pelo caminho mais fácil, que é se render a esquemas comerciais de programação, que tem pouco ou nada a ver com a comunidade em que estão inseridas.

A mudança de nome da Dinâmica parece ser um indício desse processo. Segundo Guto Clemente, a abertura para a comunidade sempre existiu, mas nunca foi eficaz. “Em quatro anos de existência da emissora não funcionou, então a gente decidiu mudar de estratégia”, explica. Isto significou uma parceria com dois profissionais de rádios comerciais: Alencar Cardial e Bruno Cardial, pai e filho. “Na verdade a gente ia comprar a rádio, né?”, conta Bruno. “Mas por amparo legal a gente não pode fazer isso. Mas na prática essa parceria é como se a gente tivesse comprado 2/3 da rádio”.

Os novos objetivos são claros: construir a marca Mais FM junto ao mercado, profissionalizar os programas e vinhetas da emissora, vender comerciais e tocar músicas “atualizadas”, como diz Guto. “Agora passamos a veicular música da atualidade, não vamos perder pras maiores rádios do Brasil”, conta.

A inserção da comunidade na rádio parece ter sido deixada como meta secundária, ou talvez até como um fardo a se carregar. “Tem gente da comunidade que às vezes grava uns CDs muito sem qualidade, que não encaixa com essa nossa proposta de profissionalismo”, explica Bruno. “Só que isso é uma coisa que rádio comunitária tem que ter. Nós vamos tentar adequar isso, trazer o amador pra um nível de transmissão profissional. É muito difícil, mas a gente vai ter que colocar. Não vai poder fugir”, conclui.

Para Elsa Caldeira, o valor real de uma rádio comunitária se dá justamente pela distinção que ela deve ter de uma rádio comercial. “Valorizar a produção cultural da comunidade, principalmente se ela for carente, faz com que ela aumente sua auto-estima e crie identidade. Esses vínculos internos fazem com que a comunidade se fortaleça”, explica.

Mesmo com a legislação opressora e a flagrante falta de incentivo à participação popular, existem exemplos no Brasil de rádios comunitárias sólidas, que conseguem se manter dignamente, com intensa cooperação da comunidade. Se em Londrina isto é possível de se fazer ou não, apenas a persistência poderia dizer. O certo é que, por hora, a periferia londrinense perde, e muito, com a ausência de rádios comunitárias legítimas que objetivam a união, o fortalecimento e a formação das comunidades em que estão inseridas. radiocincao003

Créditos:

Fotos por Pablo H. Blanco

Responses

  1. Bernardo says:

    dezembro 1st, 2009at 11:31(#)

    Excelente!

  2. carlos says:

    dezembro 1st, 2009at 20:24(#)

    Puts, nem sei o que dizer.
    Quando o povo tem na mão o poder da comunicação,
    viabiliza-se a expressão ou
    o sufocamento pela repressão.

  3. Rê Forato says:

    dezembro 4th, 2009at 8:40(#)

    Fotos lindas!
    Gostei!

  4. Raissa says:

    dezembro 4th, 2009at 10:17(#)

    eu também acho!

  5. Sr. Quarck says:

    dezembro 9th, 2009at 4:15(#)

    Melhado como sempre disse e passou a regua, Pablissimo olhar de ouro …parabens guris!

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