Por detrás do nariz vermelho
dezembro 15th, 2009 | Publicado em agir | 3 Comments
Por Fábio José
Quando a editora-chefa da Rotativa me convocou para esta pauta, um alarme interno pretensiosamente soou tentando me bloquear. Um “je nes se quais” arrogante de meu próprio ego insistia em aglomerar blocos de impossibilidades. Assim, percebi a que profundidades esta resenha poderia levar-me. Percorrer este caminho no sentido inverso, descrevendo, decupando, adjetivando o processo que me conduz enquanto bacharel em interpretação teatral a vivenciar um trabalho de palhaço seria de pronto um ato de reflexão. Expor-me também no texto assim como me exponho quando Apolloni, a criatura palhaçônica que se empresta de mim para interferir neste mundo.
Certas pessoas, quando mencionamos o termo, de imediato torcem o nariz. Algumas destas mesmas pessoas justificam sua desaprovação a traumas palhaçônicos vividos em sua tenra infância. – Tenho medo de palhaço! Não gosto de palhaço! São frases que jorram de suas entristecidas bocas. Que criatura descomunalmente poderosa é esta que pode marcar tão profundamente a alma humana? Que poderes misteriosos trazem estes homens e mulheres quando transformados com suas roupas e faces coloridas?
Na memória, também tenho imagens de palhaços horripilantes. O Ronald McDonald, o palhacinho do filme Poltergeist, o palhaço aracnídeo de Stephen King em sua odisséia do medo, o filme IT, são exemplos disso. Entretanto, estes não são suficientemente fortes para diminuirem as coloridas e alegres lembranças do Picolino, Carequinha ou até mesmo do Bozo. A primeira vez que sustentei a máscara palhaçônica foi numa matinée de carnaval do Londrina Country Clube em 1979. Minha mãe ao maquiar-me usando tintas guache seguia cuidadosamente as instruções que eu ouvira no programa do Picolino naquela mesma manhã. Tinta branca no buço e entre os olhos e as sobrancelhas, contornada com linha fina de tinta preta. Nunca me esquecerei disso. Ainda me lembro de muitos adultos achando graça no palhacinho. Anos mais tarde estou eu também sendo palhaço e diplomado.
Em Londrina existe uma cultura palhaçônica graças à tradição instalada por Picolino, que fez discípulos. Felizes de nós que podemos contar com tão preciosa jóia artística. Dentre os discípulos diretos de Ricardo Queirolo estão alguns dos atores do Plantão Sorriso, que percorrem os corredores das alas pediátricas exercitando um dos poderes mais antigos atribuídos ao palhaço, a cura pelo riso. Também são conhecidos como Doutores da Alegria.
No entanto, a arte de melhorar a saúde através do riso já era conhecida muito antes da pasta branca e dos sapatos imensos. Uma das populações nativas da América do Norte, os Sioux, crêem numa divindade denominada Heyoka, ou “Tolo Sagrado”.
A tradição narra que um Heyokah é aquele que ’sonhou com os espíritos do trovão’. Este sonho traz um grande poder ao xamã, pois se considera que eles recebem um dom especial para lidar com as tempestades. Para lidar com esse poder, este xamã se transforma num ‘contrário’. O Heyokah tem uma força de vida própria, emergente dos espíritos-trovão que sonha. Essa força de manifestação inclui a capacidade de lidar com as tempestades e poder de cura. Ele é um professor muito sábio e poderoso, o ato de ser contrário ensina sobre nós mesmos, espelhando as nossas dúvidas, medos, mágoas, fraquezas e etc. Força-nos a examinar o que nós somos realmente, e nos faz rir com isso. Alivia dores com risos.” (fonte: www.xamanismo.com.br).
Esta entidade amiga da contrariedade, pactuante como inverso, aparece em várias culturas anciãs, sempre ligado à cura, à transformação, à transmutação. Ao curar, cura-se. Viver o palhaço é lançar-se de encontro às próprias muralhas psíquicas. Num élan auto-didático para rever-se, refazer-se, revelar-se. Assim denuncia as mazelas humanas, tomando-as sobre si mesmo. A máscara do palhaço é um espelho mágico que vislumbra parte da essência da natureza de seus espectadores, expondo suas máscaras sociais.
O verdadeiro picadeiro do palhaço é a alma humana, não obstante, sua própria alma. O palhaço é um tolo sagrado, xamânico, poderoso. Monta um cavalo por trás, caminha com as mãos, veste a roupa de dentro para fora, fala uma língua de trás para diante. Ele evoca e combate os espíritos da perversidade e do caos, entidade divina, na figura do tolo, do malicioso, do louco, do contador de histórias sagrado. Ele choca a consciência humana. É reverenciado e temido, é um personagem hermafrodita, pois tem dentro de si o encontro da medicina do homem e da mulher. Arrasta as multidões, e através da gargalhada enxuga suas próprias lágrimas.
Fontes
http://www.youtube.com/watch?v=X1Kfg9X5n_4&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=95_EV4DRoQE&feature=related
Créditos
Foto por Ivan Nishi
Edição de imagem por Carlos Angelo




dezembro 16th, 2009at 7:56(#)
Tá aí Fábio José colocando em pauta o sentido do poder do nariz vermelho. Palhaço não! Sr. Advogado, quase Desembargador! De fato! É uma força sem tamanho nem tempo, que envolve o ser humano acerca de toda a inconsciencia coletiva, uma entidade vive… mostra-se dentro de qualquer indivíduo,a todo tempo, um super-ego que expõe o ridículo como troféu! Mas, ao mesmo tempo choca-se com seus conflitos, chora, rí, esperneia por uma mísera quimera, como infante que não fala, para ver ilusões em conflitos, para brincar com os sentimentos coletivos… para ver borbulhar as emoções…. “Sempre fui só uma coisa na vida: Palhaço! Isso me coloca acima que qualquer político no planeta!”(C. Chaplin)
Sobre Apolloni, posso dizer que fiz o parto dele, acompanhei os primeiros passos, compartilhamos as primeiras cenas, ví as primeiras beliscadas do público na bundinha vermelha… (como isto mexe com o inconsciente coletivo). Isso foi na FLIP2009. Continuo atuando frente ao Circo do Sô Léo, como Pço. Num féde, em cartaz itinerante do Surfando em coletivo, tomando caldo do capitalismo, onde a figura do palhaço tem a permissão de intervir em uma rota urbana com o Teatro Situacional com ênfase Brechoniana, esta ferramenta; Tema, espaço, e o menor tempo entre pensar e agir, possibilita uma quebra de rotina, para quem nunca foi ao teatro ou ñ tem tempo de ir…”Que a Nossa Senhora das Antas, nos potreja nas burrada da Vida, e que a cultura e a arte nos habitem os corações pelo sempre…”
dezembro 16th, 2009at 8:37(#)
“…e através da gargalhada enxuga suas próprias lágrimas.” Que lindo e profundamente verdadeiro! Muitos falam não gostar de palhaços, entretanto, esquecem seus medos quando numa apresentação fantástica o palhaço faz os lábios vibrarem de sorrisos estonteantes!
dezembro 18th, 2009at 15:01(#)
Bom demais!
Quantas não foram as vezes que me chamaram de palhaço, e eu tolo, com as claves na mão, achava ruim.
Nesse texto está o meu argumento, faço dessas as minhas palavras.