Economia Solidária
janeiro 29th, 2010 | Publicado em agir, recentes | 3 Comments
Por Elias Barreiros
A alternativa ao sistema capitalista sempre foi associada ao comunismo, e quase que automaticamente à figura de um líder autoritário e barbudo comandando uma população de quase robôs que trabalha arduamente sem possuir riqueza alguma, como se não tivessem nenhum momento de prazer e nenhum luxo ou conforto.
Essa imagem já não faz nenhum sentido. Há exemplos e ideias de desenvolvimento mais democrático e igualitário que o do sistema capitalista. Desse não conseguimos mais abrir mão, porém podemos pensar sim em um mundo com mais divisão de riquezas. A pobreza e a miséria provavelmente jamais vão deixar de existir, mas fica claro que é possível que um número muito maior de pessoas possa ter mais alimentos e um pouco mais de conforto em suas vidas. Ou seja, a qualidade de vida pode melhorar substancialmente desde que procuremos uma gestão, privada ou pública, mais democrática e transparente, mais igualitária e justa.
O trabalho em forma de cooperativismo e associativismo tem sido uma clara alternativa de desenvolvimento sustentável, justo e igualitário e, principalmente, uma maneira concreta de suprir demandas de emprego e renda especialmente entre os mais pobres e desprovidos de educação de qualidade. O cooperativismo é a forma, ao menos em minha opinião, mais adequada àquilo que vem sendo chamado de Economia Solidária.
Conforme mostram Gallo et AL (2009), com o agravamento do quadro de desemprego no Brasil a partir dos anos 1990, as cooperativas populares têm se mostrado uma alternativa de geração de renda e trabalho, na medida em que geram um conjunto de empreendimentos variados que juntos promovem um setor econômico viável e efetivo.
A história do cooperativismo começa na Inglaterra, numa cidade chamada Rochdale, ainda no século XIX. Tal empreendimento ficou conhecido como os “Pioneiros de Rochdale”, uma cooperativa que chegou a reunir dezenas de milhares de trabalhadores, e fundou uma série de outras nos ramos da tecelagem, habitação, fiação etc.
Há registros de cooperativas atuando no Brasil desde o século XIX, mas é possível dizer que o movimento mais intenso de criação de cooperativas brasileiras se deu a partir de 1960 nos ramos do consumo, agropecuário e de crédito rural, nas regiões sudeste e sul do país. Conforme os autores já citados, com a crise que atinge a indústria nos anos 1990, o debate em torno do cooperativismo é retomado no Brasil chegando também às esferas industriais. Em 1999, segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), havia 5. 600 cooperativas registradas somando 5,5 milhões de cooperados.
Paul Singer (2008) define a Economia Solidária como uma maneira de produzir que seja igualitária e democrática, pautada na propriedade coletiva e gerida pelos próprios trabalhadores. Portanto, a cooperativa, segundo esse autor, tem como principais características a inversão do sistema de produção capitalista que se apóia na propriedade privada individual e na relação entre trabalhadores assalariados e patrões. No sistema de cooperativismo não há essa relação na medida em que todos são sócios do empreendimento e devem ter direitos iguais na sua gestão.
Um dos grandes desafios para a Economia Solidária e a autogestão de empresas por seus funcionários, conforme Gaiger (2003), é superar uma cultura que traz consigo as heranças de uma educação deficiente, de pessoas com comportamento individualista e que participam de contextos empresariais autoritários e altamente hierárquicos. Tais barreiras só serão atravessadas a partir do momento em que as pessoas se adequem à cultura de grupo, com o envolvimento integral dos associados no negócio, superando as formas de poder burocráticas e autoritárias. Obter bom senso e conhecimentos específicos na área administrativa e nas técnicas de gestão também são fundamentais para este tipo de empreendimento.
A grande vantagem desse empreendimento, segundo mostram os autores aqui comentados, está no caráter igualitário das cooperativas, já que as decisões devem ser aprovadas por todos os cooperados, e que não há geração de lucro para um ou alguns poucos proprietários. Dessa forma os trabalhadores produzem para eles mesmos. Deste ponto de vista se ressalta a qualidade de vida e do trabalho ao invés de simplesmente se objetivar o lucro. É claro que este é importante para a sustentabilidade do negócio, no entanto, o que mais importa é que as cooperativas garantam o emprego do trabalhador e sua renda, sem que com isso ele se sinta explorado.
Referências
Gaiger, Luiz Inácio. A Economia Solidária diante do modo de produção capitalista. Caderno CRH, Salvador, n 39: p. 181-211. jul/dez. 2003.
Gallo, Ana Rita et AL. Incubadora de Cooperativas Populares: uma alternativa à precarização do trabalho. In; Economia Solidária. Vol 1. acesso em http://www.ufpa.br/itcpes/documentos/ecosolv1.pdf#page=4 . outubro 2009.
Singer, Paul. Economia Solidária. Entrevista: Estudos Avançados, vol. 22, n 62. São Paulo. Janeiro/abril, 2008.
Créditos:
Ilustração por Pablo H. Blanco



janeiro 29th, 2010at 20:57(#)
mais uma vez uma bela ilustração. valeu.
fevereiro 3rd, 2010at 4:36(#)
PABLISSIMO E ELIAS, MAIS UMA VEZ LEVANDO-NOS PARA UMA REFLEXÃO SOBRE NÓS MESMOS, POIS OUVIMOS SEMPRE QUE:
- O SISTEMA ISSO, OU O SISTEMA AQUILO!
PARABENS ROTATIVA CONDUZINDO SEU PUBLICO À PERCEPÇÃO DE QUE O SISTEMA DE FATO SOMOS NÓS.
fevereiro 16th, 2010at 20:16(#)
Bacana o texto! Complementa bem a entrevista do Skylab.